Ratto, presidente da BBCE, fala na criação de uma bolsa para o setor elétrico: “Hoje, o mercado gira entre cinco e seis vezes o consumo de energia, e já chegou a oito vezes” — Foto: Ana Paula Paiva/Valor

Depois de um ano desafiador, o Balcão Brasileiro de Comercialização de Energia (BBCE), plataforma de negociação eletrônica de energia, entra em 2020 com uma visão otimista. Razões não faltam, indica o presidente da empresa, Carlos Ratto. Além das próprias condições do mercado, que se mostrou resiliente diante das quebras de duas comercializadoras no ano passado, o BBCE espera estrear, ainda no início deste ano, a negociação de derivativos de contratos de energia— passo necessário para que possa se tornar, no futuro, uma bolsa voltada ao setor. Com as operações em tela desse produto, algo inédito no país, a expectativa é de que o mercado ganhe liquidez e atraia novos agentes, como bancos e fundos de investimento.

Enquanto aguarda a autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para operar como balcão organizado, o BBCE continua “arrumando a casa” para essa empreitada. A plataforma dos derivativos já está pronta para entrar em atividade, e passará por testes a partir do fim de janeiro. A equipe de supervisão e monitoramento das operações está em fase de seleção. E, dependendo dos prazos e exigências da CVM, a empresa pode aproveitar ainda a reunião de renovação do conselho de administração, em março, para eleger conselheiros independentes.

 

A previsão é de que o aval para as operações seja dado, no máximo, até o fim de março.

Ratto se mostra otimista com a novidade, avaliando que os números atuais do BBCE, referentes apenas ao mercado físico de energia, demonstram a existência de uma demanda praticamente consolidada para os derivativos. “Hoje, o mercado gira entre cinco e seis vezes o consumo de energia, e já chegou a alcançar oito vezes. Isso mostra que muita operação é feita por quem não precisa necessariamente da mercadoria”.

Atualmente, a única forma de negociar contratos de energia é no mercado físico, por meio de uma comercializadora. Com o lançamento dos derivativos, a ideia é atrair para esse produto financeiro quem não precisa da energia física mas está interessado em se posicionar em preços de energia, buscando proteção contra variações, por exemplo. Segundo o presidente do BBCE, um filão de mercado seriam bancos e fundos de investimento, que já têm procurado a empresa com interesse nos derivativos.

No futuro, o BBCE pretende expandir o leque para esse novo mercado, com a oferta de produtos como opções e soluções de gestão de garantia. Também estão em estudo a negociação de créditos de descarbonização por biocombustíveis (Cbio) e contratos nos segmentos de etanol e gás. “É um processo até se tornar bolsa de energia”, avalia Ratto.

No ano passado, as transações na plataforma atingiram 162,2 mil gigawatts-hora (GWh), com volume financeiro de R$ 37,31 bilhões. Os números significam uma ligeira queda ante 2018,

quando os contratos giraram 167,9 mil GWh eR$40,1 bilhões, e também interrompem a escalada vista desde 2016, que culminou em quantidades recordes de energia transacionada.

Entretanto, o presidente do BBCE pondera que o desempenho de 2019 foi satisfatório considerando que os negócios sofreram, no início do ano, com a quebra das comercializadoras Vega e Linkx. De acordo com ele, apesar do baque provocado por esses casos, o mercado livre reagiu e se mostrou “resiliente”. Houve, porém, aumento da desconfiança quanto à exposição das comercializadoras, que se manifestou no modo com que as operações foram feitas.

O BBCE observou, no ano passado, um maior número de operações de boleta eletrônica, pela qual são formalizadas negociações por telefone. Quando negocia pelo telefone, o operador sabe com quem está fechando negócio. Já na plataforma digital, apesar dos mecanismos de segurança, o operador desconhece a contraparte. E o ano parece ter começado com o pé direito: em cinco dias, foram negociados 5mil GWh, metade do volume de dezembro.

Fundado em 2012, o BBCE nasceu da iniciativa de 13 empresas. Hoje, o quadro societário conta com 35 comercializadoras, inclusive com as três maiores —EDP, Enel e Engie. Já o número de clientes da plataforma chega a quase 200, que correspondem a mais de 80% do mercado.

Por Leticia Fucuchima

Matéria disponível no Valor.