Carlos Ratto e Daniel Rossi, presidente-executivo e presidente do conselho da BBCE: com balcão organizado, próximo passo é operação como bolsa

Carlos Ratto e Daniel Rossi, presidente-executivo e presidente do conselho da BBCE: com balcão organizado, próximo passo é operação como bolsa

A plataforma de negociação de energia Balcão Brasileiro de Comercialização de Energia (BBCE) começou a formatar novos derivativos relacionados ao setor, à espera da licença da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para operar como balcão organizado. A licença foi solicitada em fevereiro, com prazo de 90 dias; a CVM pediu esclarecimentos adicionais, renovando esse período de análise, e a previsão da empresa é ter uma resposta neste mês. Enquanto isso, o BBCE vai se adaptando para tomar “ares” de mercado financeiro.

Carlos Ratto, ex-diretor de produtos da Cetip, assumiu a presidência da empresa há cerca de um mês. “Não tenho experiência no mercado de energia e sim no mercado financeiro, que é o caminho que a empresa precisa agora”, afirma o executivo. “Queremos mudar a ideia de que somos um clube de operadores de energia, e sim uma empresa de produtos e soluções financeiras.”

O BBCE tem como acionistas 32 comercializadoras de energia e funciona como uma plataforma de negociação eletrônica de contratos de energia – hoje totalmente concentrado no mercado físico de energia elétrica. Como balcão organizado, a empresa passará a negociar outros tipos de contratos. “Há outros produtos do setor que têm demanda de investidores e alguns deles já são negociados em balcões internacionais, como frete, bagaço, cbio [crédito de descarbonização por biocombustíveis] e etanol”, diz Daniel Rossi, presidente do conselho de administração do BBCE. Derivativos de frete, por exemplo, são negociados no mercado americano e no mercado chinês.

No primeiro momento serão operações bilaterais, com o risco de crédito entre as partes, registradas no balcão. Os executivos acreditam que, com a plataforma, já terão volume para migração ao novo formato. De janeiro a maio, foram negociados na plataforma cerca de 81 mil gigawatt/hora, com movimentação de cerca de R$ 20 bilhões. “O BBCE criou uma demanda de negociação e vamos passar por isso também com os derivativos, uma fase de aprendizado de mercado”, afirma Rossi.

A CVM não concede uma licença desse tipo há 19 anos, quando registrou a Cetip – depois fez adaptações de registros com base na instrução 461. O primeiro passo é a licença de balcão, mas a proposta do BBCE é se preparar para ser de fato uma bolsa (o que exigiria outra autorização, incluindo o Banco Central na discussão).

Um número mais amplo de investidores tem interesse em contratos com liquidação financeira, enquanto o público que negocia contratos com liquidação física é mais restrito. Mesas de operações de bancos, por exemplo, são considerados um filão de clientes para os contratos de liquidação financeira.

“O volume de negociação de contratos físicos de energia no mercado brasileiro hoje é oito vezes o volume de uso. O normal, em outros mercados, é que se negocie 1,5 vez nesse tipo de contrato e o restante em derivativo, para quem quer fazer hedge ou transação financeira”, diz Rossi. “Nesse cenário brasileiro, o que acontece é que o mesmo megawatt fica trocando de mão várias vezes.”

Para ser bolsa no futuro, a companhia vai precisar de uma clearing. “Estamos estudando isso, que será uma etapa para o período pós-decisão da CVM. Ainda temos que entender exatamente se precisaríamos ter a nossa clearing ou se podemos nos conectar a clearings já existentes”, explica Ratto. “É uma etapa posterior. A necessidade de depósito de margem seria uma barreira de entrada para um produto que o mercado ainda não absorveu.”

Por Maria Luíza Filgueiras | De São Paulo

Matéria disponível no Valor.