Depois de obter um faturamento de R$ 1,3 bilhão em 2018, a Copel Energia, braço de comercialização da estatal paranaense, traçou uma nova estratégia de atuação voltada para a entrega de energia para consumidores finais. O “trade” de energia seguirá tendo seu espaço na companhia, mas a gestão de energia de consumidores ganhará cada vez mais espaço, disse Franklin Kelly Miguel, presidente da Copel Energia, em entrevista ao Valor.

“Quando a comercializadora foi criada, há três anos, o objetivo era atender migrações de consumidores do grupo econômico”, disse Miguel, se referindo a consumidores atendidos pela Copel Distribuição (Copel D) que migraram para o mercado livre com a ajuda da própria Copel. Com o tempo, os negócios se espalharam por todo o Brasil, e a comercializadora hoje tem atividades em 20 Estados, mas a maior parte está no Paraná.

Essa é uma forma de “fidelizar” os consumidores de energia da área de concessão da Copel D mesmo que estes migrem para o mercado livre. “Temos o objetivo de não perder consumidores que estão saindo da distribuidora”, disse Miguel. Como a companhia é conhecida no Estado, acaba sendo mais procurada por consumidores interessados no mercado livre de energia.

Companhia aumentou as exigências de contraparte em operações depois de calotes do início do ano

Toda a energia da Copel sem contratos de longo prazo é negociada por meio da comercializadora do grupo, que também é responsável pela gestão do risco hidrológico (GSF, na sigla em inglês para a diferença entre a energia gerada e a energia vendida).

Em 2018, o faturamento líquido da comercializadora dobrou para R$ 1,3 bilhão, mas o resultado final foi prejuízo de R$ 4,8 milhões, contra o lucro de R$ 13 milhões registrado em 2017. Segundo Miguel, o desempenho da companhia ano passado ficou aquém do esperado pela exposição financeira da comercializadora, “mas já temos expectativa bem melhor de resultado neste ano.”

A estratégia focada em consumidores finais ajuda nisso, uma vez que as margens são mais elevadas e os riscos menores. “Até porque conseguimos colocar produtos diferenciados do trading, a sazonalização dos contratos é maior e os preços são diferentes”, explicou o executivo.

Como o braço de comercialização de uma das maiores empresas de energia do Brasil, a Copel Geração acompanha com atenção as discussões em torno do aumento da segurança no mercado livre, especialmente depois dos eventos do início deste ano, quando a virada de preços pegou muitas empresas de surpresa e gerou uma onda de calotes em cascata entre as comercializadoras independentes.

“O risco de crédito no setor foi subavaliado quando se está na posição de comprador de energia”, disse Miguel. Segundo ele, os vendedores exigem garantias financeiras dos compradores, mas o mesmo não vale na ponta compradora. “Tomamos medidas bastante restritivas na compra de energia de terceiros. Já tínhamos prática restritiva na análise de contrapartes e estamos restringindo mais ainda”, disse. Agora, a Copel Geração dá preferência com contrapartes que sejam de grupos econômicos de referência, relacionadas a instituições financeiras e também comercializadoras puras já tradicionais, com balanço auditado.

O executivo destacou a iniciativa da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) em torno de mudanças nas regras para aumentar a segurança, como o aumento do capital social mínimo exigido para novas comercializadoras (hoje em R$ 1 milhão) e a exigência de aportes de garantia semanais, e não mensais, como acontece hoje.

“O que entendemos que poderia ser complementar seria exigir de todas as comercializadoras um balanço auditado por uma das quatro ou cinco maiores auditorias”, disse Miguel. Outra medida seria ampliar um cadastro de inadimplentes. “A Aneel precisa criar o cadastro de inadimplentes no mercado livre, prevendo alguma penalidade, como não poder registrar contratos novos na CCEE”, disse. Hoje, a câmara pode abrir processos de desligamento, mas apenas quando os contratos são registrados na CCEE, o que não é o caso dos contratos bilaterais.

Por Camila Maia | De São Paulo

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