O grupo Delta Energia captou R$ 800 milhões em seu segundo fundo de investimentos, dando mais um passo na aproximação da energia com o mundo financeiro. Os recursos serão destinados exclusivamente a operações de compra e venda de energia com geradores, comercializadores e consumidores.

Este é o segundo fundo lançado pela Delta. O primeiro, cuja captação foi feita em parceria com a Credit Suisse Hedging-Griffo, captou R$ 1 bilhão em setembro de 2017 com investidores de private banking do grupo suíço e famílias do círculo de relacionamento da empresa. Fechado para aportes ou resgates por cinco anos, até 2022, a expectativa de retorno desse primeiro fundo era de 20% a 25% ao ano.

Desta vez, um “grande fundo de investimento” estrangeiro é o cotista majoritário, e também houve aporte realizado pela própria Delta. Não há prazo para liquidação do fundo, nem retirada programada. “Evidente que se o investidor estiver satisfeito, ele continuará investindo, que é o que imaginamos que vai acontecer”, disse Ricardo Lisboa, sócio do grupo Delta Energia.

Por razões contratuais, a companhia não divulgou o retorno esperado do fundo. “Será um bom retorno”, limitou-se a comentar Luiz Fernando Vianna, que é presidente da Delta Energia Asset Management.

Com mais de 40 anos de experiência no setor elétrico, Vianna, que acumula no currículo experiências relevantes como as presidências da Copel e de Itaipu, tem a função de executar a meta de atingir R$ 5 bilhões em recursos sob gestão da companhia até 2022.

“O fundo aproxima o mercado de energia do financeiro. Tradicionalmente, fundos investiam em ativos de energia, mas tanto o nosso primeiro quanto nosso segundo não vão investir em ativos”, disse Vianna. A expectativa do executivo é de que os R$ 5 bilhões sejam destinados à comercialização de energia, com foco no “lado financeiro” do negócio, mais do que no físico.

Instrumentos financeiros como derivativos de contratos de energia podem ser uma alternativa futura para investimentos do fundo. Lisboa faz parte do conselho da BBCE, plataforma eletrônica de leilão contínuo para comercialização de energia, que espera receber ainda neste ano a autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para atuar como entidade administradora de mercado organizado de balcão, o que vai permitir o registro de derivativos de contratos de energia.

A construção desse mercado é um processo lento, uma vez que as transações de energia ainda envolvem baixa liquidez no país. “Construir um fundo como esse é um trabalho de mais de um ano, precisamos checar a disponibilidade de recursos, verificar o real funcionamento do formato”, explicou Lisboa. Para ele “as oportunidades mudam de tempos em tempos”, e a Delta tem como objetivo encontrar a melhor oportunidade para os investidores.

“Vejo como quase inevitável que no futuro o mercado de energia desvincule o físico do financeiro”, disse Lisboa. Segundo ele, em países em que isso já aconteceu, com desenvolvimento de uma “clearing” voltada para energia, o resultado foi saudável para o setor, ao permitir mais formas de financiamento, por exemplo. “Imagino que daqui cinco anos, em vez de comprar bitcoin pelo celular, você poderá comprar energia elétrica”, afirmou Lisboa.

Ao mesmo tempo em que se discute o avanço do mundo financeiro sobre o setor elétrico, o mercado livre de energia passa por discussões em torno do aumento da segurança das negociações, depois que algumas comercializadoras descumpriram contratos no início do ano e deram início a um efeito cascata de calotes. “Uma prova da solidez e credibilidade da Delta é que justamente num momento como esse conseguimos fazer a captação”, disse Lisboa. Segundo ele, o mercado pode ser sólido, “desde que se trabalhe com competência e responsabilidade”.

A companhia iniciou as conversas com o investidor cotista do fundo antes dos problemas do mercado livre chamarem a atenção. “O investidor confiou na Delta, não tivemos nenhum problema porque fazemos uma análise de crédito criteriosa”, disse Vianna.

Por Camila Maia | De São Paulo

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