São Paulo, 29/10/2019 – A Engie adquiriu participação minoritária do BBCE, plataforma eletrônica de negociação de energia, tornando-se o 34º sócio da empresa, com um lote de 1.000 ações, o que corresponde a pouco mais de 2%. O valor da operação não foi revelado, mas o presidente do BBCE, Carlos Ratto, destaca que os recursos vão colaborar para fazer frente às iniciativas em andamento, como o lançamento da negociação de derivativos, que ainda aguarda autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), e a criação de novas funcionalidades para a plataforma, como a gestão de garantias.

“As três maiores multinacionais do setor que operam com comercialização agora são sócias do BBCE e isso é mais uma demonstração que realmente o setor necessita de infraestrutura de mercado para poder suportar negociações de energia e a aposta é o BBCE. Então, reforça, por um lado, nosso compromisso, por outro lado, nossa responsabilidade de melhorar o que fazemos hoje e desenvolver novas ferramentas, novas funcionalidades, e a própria entrada no mercado de derivativos”, comenta Ratto.

Entre as multinacionais de energia, a portuguesa EDP e a italiana Enel também fazem parte do quadro societário do BBCE, que foi criado em 2012 por um grupo de aproximadamente uma dezena de comercializadoras com o objetivo de estimular a liquidez nas negociações no mercado livre de energia. Aos poucos, foram sendo incorporados novos sócios, como estava previsto desde sua fundação. Pelo menos desde 2016, a plataforma, hoje com cerca de 150 clientes, busca alternativas para desenvolver a negociação de contratos financeiros de energia e atualmente negocia a questão com a CVM.

Além do BBCE, outras iniciativas similares procuraram ao longo dos últimos anos se estabelecer como plataforma de comercialização eletrônica de energia vislumbrando uma futura atuação como bolsa, caso da Brix – Brazilian Intercontinental Exchange, que tinha como acionistas a Intercontinental Exchange (ICE), o fundador da CVM, Roberto Teixeira da Costa, o empresário Eike Batista, o presidente da Coteminas, Josué Gomes da Silva e o presidente da comercializadora Compass Energia, Marcelo Parodi.

O presidente da Engie Brasil Energia, Eduardo Sattamini, explica que a companhia optou por acompanhar a evolução das plataformas antes de tomar uma decisão de investimento em qualquer iniciativa e salienta que a empresa tem entendimento de que deve apoiar o desenvolvimento de uma solução nesse sentido, tendo em vista, em especial, a modernização do setor que vem sendo discutida atualmente. “Quando olhamos pra frente e vemos o mercado mais aberto, mais dinâmico, com precificação de atributo, com preço horário, isso nos leva a um mercado com nível de sofisticação maior, no qual uma plataforma de negociação vai agregar valor. Nossa visão é de que, ao estimular essa plataforma, criamos um mercado mais competitivo, onde vai ter produtos que podem mitigar riscos, vai ser um marketplace onde conseguimos encontrar produtos necessários à nossa operação, onde podemos comercializar de forma mais ágil, com precificação mais adequada”, diz.

Derivativos

Uma das principais apostas do BBCE no curto prazo é o início da oferta de produtos derivativos de energia. Desde o início do ano, a plataforma busca junto à CVM a autorização para operar como balcão organizado. As discussões têm levado mais tempo que o previsto e Ratto já admite a possibilidade de que o lançamento efetivo desses contratos na plataforma ocorra apenas em 2020. “Tem a questão do ineditismo no processo, tanto da nossa parte como da CVM, de ser uma das primeiras infraestruturas de mercado aprovadas sob a (instrução CVM) 461, mas caminha bem”, justifica o executivo, ex-Cetip, e que está a frente do BBCE desde abril. Ele salienta que o BBCE tende a ser a primeira empresa de mercado de balcão organizado depois da Cetip, que teve inicio há mais de 30 anos.

Segundo ele, representantes da CVM e da plataforma têm conversado semanalmente, e o BBCE trabalha nos ajustes e documentos necessários para que, uma vez protocoladas as respostas pendentes, a CVM possa concluir a avaliação do processo dentro do prazo regulamentar de 60 dias. “Estamos pagando o preço por estar desbravando pela primeira vez esse processo de aprovação”, diz.

Inicialmente, a ideia do BBCE é oferecer contratos a termo (non deliverable forward) de energia, com liquidação semanal e com liquidação mensal. “O volume total de registro de contratos de energia atualmente é quatro a cinco vezes maior do que o total de consumo… chegou a bater oito vezes o volume, o que demonstra que existe um mercado puramente financeiro dentro do mercado físico de energia, que é onde se negocia só preço, não se negocia mercadoria”, explica.

A ideia, diz Ratto, é que os produtos de entrega física, já ofertados atualmente no BBCE, sejam negociados especialmente entre aqueles que realmente precisam da energia, enquanto o balcão de produtos financeiros passará a concentrar operações para quem quer se posicionar no preço de energia. Com isso, de acordo com ele, a longo prazo a tendência seria o mercado físico negociar entre uma e duas vezes o volume de energia consumido e o mercado financeiro movimentar da ordem de até cinco vezes esse montante.

“Lá na frente, se esse mercado financeiro de energia crescer e ganhar liquidez, se acontecer o que aconteceu com o mercado de câmbio, podemos ser uma referência de preço de mercado”, vislumbra. Atualmente, a melhor referência de preço para o mercado de curto prazo de energia é o PLD – Preço de Liquidação das Diferenças. Mas o valor, definido semanalmente pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), é baseado em cálculo estatístico, que levam em conta hidrologia, situação dos reservatórios e projeções de carga.

Gestão de garantias
Paralelamente ao lançamento dos derivativos, o BBCE inicia o desenvolvimento de uma nova funcionalidade, a gestão de garantias, que deve ser utilizada em especial nos produtos de entrega física. “Um mercado que hoje é 100% bilateral depende de risco de crédito entre as partes, mas achamos que podemos ser (…) um agente de garantias”, disse Ratto.

A expectativa é de que algum serviço nessa frente possa estar disponível até meados do ano que vem. “Com a entrada de recursos e a montagem de time, em que estamos trabalhando, mas deve ser concluído em breve, vamos ter condições de começar a desenvolver trabalho para gestão de garantias”, disse.

A discussão sobre garantias para as operações de compra e venda de energia no mercado livre ganhou força no início deste ano, depois que uma reversão da expectativa para os preços de energia de curto prazo levou à quebra de algumas comercializadoras, que não tinham energia para entregar a seus clientes.

Contato: luciana.collet@estadao.com

Fonte: Agencia Estado

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