Acontecimentos do início do ano colocaram comercializadoras em alerta quanto à necessidade de gerir melhor suas contrapartes e mitigar efeitos de eventual inadimplência.

O segmento de comercialização aumentou o nível da régua quanto à gestão de risco depois do caso que afetou o mercado livre no início do ano. E isso é um passo importante para a evolução do segmento já que uma gestão de risco bem avaliada traz mais segurança às operações. Esse pode ser um passo rumo à clearing house, que, apesar de não ser a solução dos problemas, pode ajudar no desenvolvimento do setor.
Na avaliação do presidente do Grupo BC Energia, Alessandro de Brito Cunha, a clearing é um negócio e como tal precisa ser rentável. Para se chegar a esse ponto, o mercado precisa desenvolver uma cultura de análise de risco. Essa ação, continuou ele, é cada vez mais necessária, pois o segmento vem crescendo cada vez mais e é necessário ter mais controle sobre seu portfólio de contratos.
No caso da BC, admitiu o executivo em evento promovido pela empresa que dirige, houve dois episódios de inadimplência de contraparte. “De quem foi a culpa de termos registrado esses dois episódios? Foi somente nossa que abrimos o crédito, não há quem culpar! Não há como saber o risco da contraparte; o ponto é que precisamos estabelecer o nosso limite de risco e esse é um recado que temos que pensar, discutir e aprofundar as métricas”, afirmou ele. “A clearing é um futuro que pode acontecer, mas para o futuro. Me parece possível mas pela formação de preços e a matriz elétrica do país, temos naturalmente uma volatilidade alta e isso traz desafios e stress para uma clearing que pode até mesmo quebrar em uma determinada situação”, apontou ele durante o 4° Encontro dos Agentes do Setor Elétrico no Centro-Oeste.
O presidente da PSR, Luiz Barroso, lembrou o caso na Europa de uma clearing que passou perto de um default por conta de uma perda de 100 milhões de euros. Ele comparou o caso com a quebra do Lehman Brothers, que deu origem à crise de 2008. Na comparação entre os dois episódios, a instituição financeira norte americana ultrapassou dois níveis de segurança que formam a clearing, já na Europa o impacto foi mais profundo, alcançou seis camadas de segurança, o que aproximou o problema europeu de uma quebra da clearing.
Por aqui, disse o executivo da PSR, a questão da volatilidade dos preços de energia é um problema que poderia acarretar em um problema dessa natureza devido à variação que temos atualmente. Por isso, acrescentou ele, é necessário que o mercado possa se organizar e amadurecer antes de chegar a esse ponto.
Henrique Felizatti, diretor da consultoria Dcide, afirmou que criar uma clearing no Brasil ainda é uma questão complexa. Passa pelo fato de quem vai pagar o custo dessa instituição que pode fazer a chamada de margem diária de acordo com a variação do PLD e outras chamadas adicionais. “A questão é se existe agentes dispostos a aporta a cachoeira de capital para a clearing e o custo de liquidez para margin call e custo de garantia”, ressaltou ele.

Ele apontou que choques de mercado como o ocorrido no início deste ano são dolorosos para o setor, mas ao mesmo tempo representam uma oportunidade para a criação do que classificou como “cultura de risco”, ou seja, as empresas passarem a ver esta questão como importante para seu negócio. Consequentemente, explicou, esse é um grande requisito para que se possa criar uma clearing house no país.

“O mercado de energia pode ter a cultura de gestão de risco e uma evolução bastante rápida com os aprendizados que o caso do início do ano trouxe”, disse ele.

Mauro Dutra, líder do BTG para análise de risco, lembrou que no mercado financeiro existem ferramentas para mitigar o risco. São derivativos para o mercado de energia que reduzem o custo para o mercado. Não necessariamente precisa de uma clearing, que aumentaria o custo para o mercado. Seria um mercado de contratos bilaterais de balcão.

Felizatti, da Dcide, destacou que o mercado está caminhando para uma lógica de valorizar a análise de risco. Esse era um tema que as empresas não gostavam de falar, pois era visto como sinônimo de custo. “Hoje as companhias enxergam o conceito de forma mais ampla, uma ferramenta para ajudar a investir, que pode maximizar e traz sustentabilidade de longo prazo para as empresas que já perceberam isso”, destacou ele.
Segundo estudos da Dcide, para comercializadoras de R$ 1 milhão de capital disponível, o limite operacional para operar no mercado sem gerar default seria de 20 MW médios mês. “Mais que isso vai extrapolar o limite de risco”, definiu. Em uma empresa com R$ 10 milhões de capital o volume aumenta para 150 MW médios, isso para o produto energia para o mês seguinte, o mais volátil no setor.
A segurança de mercado é a principal bandeira que se discute atualmente. E no foco das entidades estão as medidas que podem entrar em vigor a partir de janeiro de 2020, decorrente da proposta da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica. Tanto que nesta quarta-feira, 26 de junho, o grupo técnico da Abraceel está reunido na capital de Goiás para discutir as medidas apresentadas e tomar uma posição a ser apresentada na futura audiência pública que a Aneel abrirá para discutir o tema.

Nos bastidores há um descontentamento com a atuação da CCEE quanto à atuação na segurança do mercado livre. Mas o presidente do conselho de administração da entidade, Rui Altieri Silva, destacou que essas são as regras que na visão da câmara são as mais adequadas para enfrentar o problema. Ele convocou os agentes para que apresentem suas ideias no ambiente ideal para as discussões, a audiência pública.

“Apresentamos a proposta e tivemos reações do mercado mas essa é nossa proposta. O que podemos dizer é que da forma que está não ficará, se queremos um setor robusto e saudável temos que dar mais segurança e o fórum de discussão é na Aneel”, afirmou ele à plateia composta majoritariamente por comercializadores de energia.

Altieri afirmou que a volatilidade de preços é benéfica para o país, pois essa característica garante o trade de energia. O problema, lembrou é a variação excessiva dos valores. Um dos pontos está também no modelo, que valoriza muito mais a previsão futura do que o nível de reservatórios. Lembrou que em pleno fevereiro, período úmido, estávamos com os preços de liquidação das diferenças no teto enquanto no início de junho o CMO zerou no país levando o PLD para o piso e três semanas depois já estava em R$ 120/MWh.
Humberto Fratari, gerente de risco da BC Energia, completou ao afirmar que essa situação vivida traz a necessidade de as empresas mudarem seu mind set. E que por isso, a análise de risco torna-se uma área estratégica para as empresas.
Matéria disponível no Canal Energia.